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Pilão dando uma mãozinha para a tina

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).

“Lá nos matos” do Tabuleiro, distrito de Guaragi, moravam meus avós, tios e tias descendentes de imigrantes italianos, os Antoniácomi. Nós, netos e netas, que já conhecíamos paçoquinha embrulhada em papel colorido, quando visitávamos Vô Júlio e Vó Mariuta (Maria) e as tias solteiras que ainda moravam no sítio com eles, comíamos paçoquinha preparada na hora, com café. Era a guloseima que havia no sítio, que a vó moía num pilão “manual”, de madeira, que ficava na cozinha dela. Juntava o amendoim torrado com farinha de milho e açúcar, e socava naquele pilão até virar paçoca. Uma delícia.

Mas no quintal, atrás da casa, havia uma engenhoca mais brutal. Era uma “arataca” de madeira rústica, cujos elementos eram o pilão, entalhado em um enorme e pesado cepo; a mão do pilão, que consistia numa viga de madeira com a ponta arredondada (que pendia de uma estrutura também de madeira firmemente fincada no chão), com um mecanismo que a fazia elevar-se do pilão a uma altura de, talvez, meio metro, despencando com a força da gravidade de novo para dentro do pilão; e uma espécie de gangorra, impulsionada por uma das tias, que participava dessa elevação e queda da mão do pilão como se fosse uma brincadeira (assim era vista pelas crianças). E as crianças? Uma por vez, sentavam-se na gangorra com uma das tias segurando-as para não caírem enquanto a outra tia, a da força motriz, aliviava controladamente o peso, produzindo a risada da criança que pulava para cima enquanto a mão do pilão despencava, e a ansiedade das que esperavam sua vez na fila. 

Mas o interessante, é que tenho em minha memória uma imagem surreal dessa estrutura no quintal atrás da casa. Não sei dizer se vi acontecer, ou se imaginei de um modo muito vívido, ou se alguém inventou essa estória para impressionar a criança ingênua, que era bem eu, que acreditava em qualquer lorota. O fato é que a memória existe: uma tina com água e sabão, no lugar do pilão; uma corda ou algo assim, no lugar da mão do pilão; roupas penduradas de algum modo nessa corda; e a tia sorridente “brincando” de gangorra, soltando as roupas dentro da tina, fazendo borbulhas, espalhando pingos d’água para fora da tina, quando subiam de novo. Uma repetição que, certamente, acabava por limpar as roupas. 

E aí? Imaginação, sonho, vida real, ou lorota? Não tenho mais vergonha de confrontar meus “micos”, mas agora também não tenho as tias para me dizerem se essa memória era realidade ou “mito”. Eu aposto no mito. E acho que prefiro mantê-lo intacto, pois a realidade costuma ser mais chatinha.

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