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Ombudsman registra trinta anos em jornalismo diário no Brasil

Mas para o jornalismo diário brasileiro, que registra diuturnamente fatos e versões que mudam a vida de milhões de pessoas, é quase uma vida

Aos historiadores (modernos, em especial), três décadas pode parecer pouco tempo para marcas documentais. Mas para o jornalismo diário brasileiro, que registra diuturnamente fatos e versões que mudam a vida de milhões de pessoas, é quase uma vida – ou, ao menos, envolve algumas gerações de profissionais.

Desde 1989, o Brasil passou por diversos “solavancos” ou sacudidas que impactaram na vida (e morte) de milhões de contribuintes. Ao seu modo, e sob variadas críticas, o jornalismo apresenta algumas versões aos acontecimentos do cotidiano e da história recente.

E são as pressões (espaço e tempo) e tensões sociais que deixam a produção jornalística cotidianamente sob questionamento, suspeita e cobrança por uma série de razões e justificativas. A crítica, ou autocrítica, portanto, se torna uma marca fundamental, inclusive para manter ou conquistar leitores/ouvintes/telespectadores, seja em suportes digitais ou analógicos. Incorporar a crítica da produção, no entanto, tem sido uma batalha e dificuldade de incontáveis profissionais que insistem na necessidade de que, para além da necessária humildade, pode ser uma forma de dialogar com os setores diretamente envolvidos e interessados nas produções jornalísticas.

Vem daí a motivação e o desafio para criar e manter espaços interativos capazes de “oxigenar” a produção jornalística a partir de uma espécie de monitoramento constante, seja para interagir com leitores, profissionais da área ou mesmo com os demais setores da sociedade, que ainda veem a mídia como espaço de expressão e pluralidade dos problemas sociais da cidade, região/estado e país.

Em que pese a instituição secular da função de ombudsman em serviços públicos e comerciais de diversos países do mundo (seja em versão de ouvidor, mediador ou provedor de cliente), no jornalismo a experiência é recente. Pelos registros, foi em 1967 que dois diários norte-americanos (em Kentucky) lançaram as primeiras iniciativas de crítica editorial.

No Brasil, a experiência é ainda mais recente, pois data de setembro de 1989, pela Folha de S.Paulo. Outros diários, em seguida, decidiram implantar experiências de análise sistemática da produção jornalística, como é o caso do Correio da Paraíba (1991/1993), O Povo (Fortaleza/CE), em 1994, Diário do Povo (Campinas/SP, 1994/1996), A Notícia (Santa Catarina, 1995/1997), Jornal da Manhã (Ponta Grossa/PR, 2007/2011).

E isso, é claro, em jornais diários, pois incontáveis sites, periódicos não diários (semanais, mensais ou revistas), bem como jornais laboratoriais em cursos de jornalismo de universidades de todo o país também já adotaram e, em muitos casos, ainda mantêm espaço regular de crítica de mídia, seja como ombudsman, conselho de leitores ou outros formatos. Entretanto, no que diz respeito aos periódicos com edição diária, ao registrar três décadas da experiência de ombudsman, apenas dois jornais mantêm espaço regular de crítica: a Folha de S.Paulo e O Povo.

Ao referenciar a coletânea Ombudsman no jornalismo brasileiro (Editora Insular, 2018), a ex-ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa (2019), destaca a importância e necessidade de crítica no jornalismo brasileiro. Em recente texto publicado, Juliana Rosas – também autora de um capítulo na coletânea -, que já pesquisou o assunto, avalia que o mesmo jornalismo brasileiro que “quer se mostrar accountable”, por um lado, “não deseja ser tão transparente”, pois, na prática, ao não implantar e manter espaço regular de crítica de mídia, seja como ombudsman ou outro formato, que “mencione ou traga a público certos assuntos, é não querer ser totalmente transparente”. Na prática, ainda falta assumir, em casa, o que habitualmente se cobra na cobertura jornalística.

Paula Cesarino Costa diz que “o cargo de ombudsman continua a ser importante na busca por uma imprensa melhor, mas também precisa enfrentar o desafio de se reinventar diante do jornalismo digital e da comunicação direta que as redes proporcionam”. Oportuno!

Difícil – para não dizer triste – é constatar que o período de recentes três décadas, ao que tudo indica, pouco serviu aos gestores da mídia (mainstream) brasileira para perceber e aceitar que (auto)crítica é fundamental em qualquer área profissional. E, pois, não haveria de ser diferente em jornalismo.

No ano em que se registram três décadas de experiências de ombudsman no jornalismo brasileiro (1989-2019), pouco se pode comemorar. Talvez, apenas desejar ‘vida longa’ ao que resta de crítica de mídia no jornalismo diário que ainda circula no país. E que outros tempos, desafios e atores revigorem a função social do jornalismo como serviço de interesse coletivo e forma de conhecimento humano!

Em tempo: sobre o assunto, além do livro Ombudsman no jornalismo brasileiro, há textos e podcast na Folha de S.Paulo. E, para o primeiro semestre de 2020, a Revista Brasileira de História da Mídia (RBHM) prepara um dossiê temático sobre as “três décadas de crítica de mídia em jornalismo diário no Brasil”, com ensaios e reflexões de registros e estudos de pesquisadores da área no país.


Sérgio Luiz Gadini é jornalista, professor da UEPG, co-organizador (com Elaine Javorski) do livro Ombudsman no jornalismo brasileiro e foi ombudsman do Jornal da Manhã (Ponta Grossa/PR).

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