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Entre a enxada e a casa: a mulher na agricultura de PG

Nesta semana do Dia Internacional da Mulher, conheça a trajetória das lutas e das alegrias da agricultora Amélia Kolinky, que fornece alimentos para o Feira Verde e os vende também na feira do produtor

Ela prepara a terra, semeia, cultiva as mudas, passa defensivos, colhe, vende as verduras e cuida da parte administrativa da propriedade de sua família. Paralelo a essas atividades, há também os afazeres de casa, diariamente. Essa é a rotina de trabalho de Maria Amélia Kolinky, 49 anos, agricultora de Ponta Grossa.

 Amélia, como é conhecida, já trabalhou em outras atividades anteriormente, como em auxiliar de escritório, e se formou em um curso técnico de Administração. Há 19 anos, a vida da mulher era completamente diferente. Criada pelos pais e sendo a única filha mulher da família, desde cedo ela se inseriu no mercado de trabalho. Mas, foi a partir de 2001 que Amélia descobriu no que realmente queria trabalhar: na agricultura.

Tudo começou após ela se casar com o esposo Daniel. Eles se conheceram em um baile da cidade e tempos depois concretizaram o enlace matrimonial. Daniel já era agricultor. Desde criança ele vive em propriedades rurais. Após um diálogo entre o casal, ficou decidido que Amélia moraria com o marido na terra da família deles, localizada no Cristo Rei, em Ponta Grossa.

No começo, a mulher ficava mais em casa. Ela teve uma gravidez de risco logo no início do casamento e precisava ficar ao máximo em repouso. Depois do nascimento da filha, Amélia viu a necessidade de trabalhar para conseguir ajudar o marido no sustento da casa. Foi então que começou a aprender as práticas da agricultura e a pesquisar sobre o assunto.

“Eu queria ser parceira do meu marido e ele me apoiou. Então me interessei em aprender e comecei a plantar as minhas primeiras hortaliças. Foi ali que eu me encontrei. Senti o gosto de ter a liberdade de fazer o que eu gostava, na hora em que queria, e tive o prazer de ter um alimento para preparar que eu mesma havia plantado e cuidado. Meu marido me ajudou nos afazeres de casa e juntos começamos a tocar nosso negócio”, conta Amélia.

Desigualdade no campo

A história de Amélia é apenas mais uma das agricultoras que vivem em Ponta Grossa. Conforme os dados atualizados do cadastro de produtores rurais da Prefeitura do município, há 1232 agricultores ativos cadastrados na cidade. Desse número, apenas 26,6% são mulheres. O dado revela que a discrepância entre a presença de homens e mulheres no campo ainda é grande. O índice não se difere muito da realidade brasileira. Conforme o Censo Agropecuário feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 18% das propriedades rurais do país são administradas por mulheres. 20% das terras possuem o casal como administradores em comum.

E não é à toa que a diferença de números entre os dois sexos é grande. Ainda há um preconceito na sociedade de que a mulher não entende e não sabe fazer muitos trabalhos braçais. “Eu já fui em uma loja comprar alguns insumos agrícolas porque eu também dirijo trator. Os atendentes me olharam com um olhar de subestimação. Eu fiquei constrangida e não voltei mais a frequentar aquele local. Outra vez eu fui comprar um produto e me perguntaram se era para eu tomar. Como se eu tivesse interessada em tomar veneno e não em utilizar o insumo para o meu trabalho”, relata Maria Amélia.

Mesmo com as diferenças de tratamento, há de se valorizar a luta das mulheres que continuam no campo, enfrentando frequentemente o preconceito. No caso de Amélia, apesar das dificuldades encontradas, a vontade de continuar trabalhando no que gosta e de mostrar para os filhos que a mulher merece respeito prepondera em sua decisão diária. “Eu convivi em ambientes machistas desde nova. Tem pessoas que naturalizam isso. Eu já me questionava o porquê que a mulher tinha que se submeter a algumas situações. Foi com essa ideia que eu decidi que iria batalhar para ser o que eu queria ser. E ensino isso para minha filha e para meus dois filhos. Prezo pela igualdade dentro de casa. Ensino desde cedo que serviços domésticos não são só de mulheres e que minha filha não pode aceitar menos do que ela merece, quando se refere a respeito”, enfatiza a agricultora.

O abre-portas para a família

Vivendo em uma propriedade de 10 hectares, Amélia tem a sua produção e o marido a dele. Eles são agricultores familiares e cultivam hortaliças e legumes. As preferidas da mulher são a cenoura e a batata-doce, consideradas por ela como alimentos que também gosta de comer. Para ela, a maior alegria de seu trabalho acontece nas feiras do produtor rural, um dos locais onde vende seus produtos. “O que me deixa mais feliz é quando um cliente olha e fala: ‘nossa, que verdura bonita’ e leva com a certeza de que está comprando um alimento saudável e de qualidade. É quando eu vejo que meu trabalho vale a pena”, ressalta Amélia.

Os produtos cultivados por Amélia são vendidos em três programas da Prefeitura de Ponta Grossa: para o Feira Verde, para a feira do produtor rural e para a merenda escolar do município. Todas essas iniciativas garantem que a mulher consiga ter uma renda, que usa para sustentar a casa e os filhos, juntamente com o marido que também vende alimentos para esses programas.

“Esses programas abriram portas para a minha família, porque temos a certeza de que conseguiremos vender nossas horticulturas e não iremos ter prejuízo com a perda dos alimentos cultivados. A luta do agricultor hoje em dia é conseguir produzir com baixo custo, vender a preços acessíveis e conseguir um retorno financeiro mais benéfico”, alega.

O Feira Verde e a feira do produtor rural, dois dos locais onde a agricultora vende seus produtos, são coordenados pela Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Ponta Grossa (SMAPA). Os dois têm o intuito de possibilitar que os produtores rurais consigam comercializar as culturas colhidas pelos produtores. No Feira Verde, a Prefeitura compra os produtos de Amélia para distribuir para a população durante as trocas de materiais recicláveis. O secretário Bruno Costa afirma contentamento por saber que os programas abriram porta para a família de Amélia e diz estar aberto às demandas das agricultoras da cidade.

 “O nosso intuito é servir cada vez mais os agricultores da nossa cidade e apoiamos a igualdade de tratamento no campo e fora dele para com todas as pessoas. O trabalho da mulher ajuda a somar forças para que mais produtos sejam cultivados no nosso município e o Feira Verde visa reconhecer esses esforços. É necessário que cada vez mais haja a disseminação da informação de que mulher pode e tem conhecimento para ocupar os espaços da área rural. Esperamos que o índice de mulheres produtoras cresça no nosso município”, declara o secretário.

A singularidade do sucesso de Amélia

Hoje, após quase 19 anos trabalhando no campo, Amélia consegue ter seu próprio dinheiro e trabalhar conforme as suas regras. Ao olhar para trás e relembrar tudo o que viveu, ela consegue enxergar que teve privilégio por encontrar um marido parceiro que o apoia, mas que também foi guerreira por abraçar a causa e continuar até hoje. Para ela, a vida no campo foi uma forma de se encontrar profissionalmente e um meio de criar sua família ensinando aos filhos o respeito e a igualdade entre todas as pessoas.

“Sempre tive comigo a frase: ‘tenha coragem e seja gentil’. Isso eu tento praticar e talvez seja o que me fez continuar no trabalho diário. Incentivo a minha filha a continuar nesse caminho, se é o que ela quer. A menina de dez anos que me encontra no espelho todos os dias, e que viu o machismo por várias vezes na sociedade, sente orgulho da mulher que me tornei hoje”, finaliza Amélia.


As informações são da assessoria de imprensa

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