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Crônica da semana é de Róbison Benedito Chagas

a mágica das cidades nos campos gerais da minha infância 

"abre-te sésamo!" é com a expressão do meu primeiro livro infantil que abro as portas da crônica, essa casa tão distante de mim. "abre-te sésamo!" a viagem mágica começa em guaragi, na estação de trens, nos pastéis da nhá purfa, quando vínhamos "para a cidade".  nos trens de guaragi que minha mãe me mostrou todas as cidades do mundo dentro dos campos gerais. viagem longa. uma hora e meia no balançar dos trilhos. a cada segundo um país, cidades, árvores, rios, pessoas acenando da beira da linha. a mãe nomeava as coisas. um capão de árvores velhas e frondosas era a floresta negra. estamos na alemanha. ao longe o monte fuji. veja o sol, meu filho, é o país do sol nascente. um barranco alto e estávamos em portugal. ali é trás-os-montes, ouça filho, o canto dos camponeses colhendo uvas. depois a espanha, pequenos sítios com gado e ela dizia: touradas! as vacas que pastavam eram touros sanguinários para mim. na estação do roxo-roiz, avistava a tia do pelé (do pelé de guaragi). vendia jabuticaba, butiá, mexerica, peixe frito. aqui é um país de muito comércio, é o marrocos, depois a turquia. eu só sorrisos quando a mãe comprava amendoim com casca. a viagem seguia. e eu só tinha três anos. próximos à ponte do tibagi, cheia de orgulho, informava: filho, essa é a ponte de londres, linda e longa. sentado em seu colo, meu olhar fixo era para as águas, ainda límpidas, era 1960. o trem apitava. a fumaça ficava para trás. histórias se esvaiam. outras nasciam. árvores, casas, países. polônia. áustria. cidades. varsóvia. lisboa. praga. eu não entendia esse nome, meio palavrão. mas eu só tinha três anos. istambul. cairo. nova délhi. pra lá de bagdá. tantas cidades na minha cidade. e a cochinchina, mamãe, já passamos? a vida ia pelo rio de janeiro, pelo belo horizonte. uma hora e meia de trem. da escócia à noruega, à rússia, tão misteriosa. a mãe com tantas histórias, mas só a paisagem me interessava. o universo geográfico crescia nos meus campos gerais. dos "poentes de minha terra", de certa anita philipovsky, ao caminho das tropas. à tão distante castro de tantos sapos. tantos países. passados quase 40 anos, na volta do campus de palmeira, uma colega sempre dizia, perto da ponte do tibagi: "ponta grossa, iluminada, parece paris". saudade do trem. ali em frente é paris. de guaragi a ponta grossa, o mundo, até ali babá e os 40 ladrões. mas eu só tinha três anos. hoje, 60 anos depois, viajo, ainda menino e minúsculo.

Texto produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

Nota da redação: O autor Róbison Chagas, poeta consagrado, propositalmente empregou a "licença poética" na crônica, não utilizando as regras gramaticais usuais. Entretanto, essa licença não compromete a qualidade literária do texto, considerado elevada.

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