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Do autor e seu compromisso (15/09)

No dia 29 de maio de 2002, horas antes de eu colocar um ponto final no meu novo livro, fui até a Gruta de Lourdes, na França, encher alguns galões de água milagrosa na fonte que ali se encontra. Já dentro do terreno da catedral, um senhor de aproximadamente 70 anos me disse: “Sabe que você parece com o Paulo Coelho?” Eu respondi que era o próprio.

O homem me abraçou, me apresentou a sua esposa e sua neta. Falou da importância de meus livros em sua vida, concluindo: “Eles me fazem sonhar.”

Já escutei esta frase várias vezes, e ela sempre me deixa contente. Naquele momento, entretanto, fiquei muito assustado – porque sabia que ‘Onze minutos’ falava de um assunto delicado, contundente, chocante; o percurso de uma prostituta brasileira em busca do encontro com sua alma. Caminhei até a fonte, enchi os galões, voltei, perguntei onde morava (no norte da França, perto da Bélgica) e anotei o seu nome.

Na mesma hora, tomei a decisão de dedicar o livro a este senhor, Maurice Gravelines. Tenho uma obrigação para com ele, sua mulher, sua neta, e comigo: falar daquilo que me preocupa, e não do que todos gostariam de escutar.

Alguns livros nos fazem sonhar, outros nos trazem a realidade, mas nenhum pode fugir daquilo que é mais importante para um autor: a honestidade com o que escreve.              Escrever sobre sexo, para mim, era um desafio que me acompanhava desde minha juventude, quando a revolução hippie criou uma série de novos comportamentos a este respeito, às vezes indo até o limite do bom-senso. Depois destes anos loucos, passamos por um período conservador, pelo advento das doenças mortais, por aquela pergunta que sempre voltava: “mas sexo é mesmo tão importante assim?”

Vivemos em um mundo de comportamento padrão: padrão de beleza, de qualidade, de inteligência, de eficiência. Achamos que existe um modelo para tudo, e achamos também que, seguindo este modelo, estaremos seguros.

E por causa disso, estabelecemos um ‘padrão sexo’, que na verdade é composto de uma série de mentiras: orgasmo vaginal, virilidade acima de tudo, melhor fingir que deixar o outro decepcionado, etc. Como consequência direta, este tipo de atitude tem deixado milhões de pessoas frustradas, infelizes, culpadas. E tem provocado todo tipo de aberração, como a pedofilia, o incesto, ou o estupro.  Por que nos comportamos assim com algo tão importante?

Da mesma maneira que um autor não sabe jamais o percurso que irá percorrer com seus livros – e por isso permite que seus textos caminhem em direções inesperadas – nós também precisamos viver nossas contradições, principalmente em áreas tão sensíveis como o sexo e o amor. O homem que quer seguir um padrão o tempo todo, será obrigado a pensar hoje o que pensava ontem, e usar sempre a gravata combinando com a meia; existe algo de mais aborrecido?

A sociedade que hoje aborda o comportamento sexual com o ‘padrão’, sem respeitar as diferenças individuais, deve procurar lembrar-se de um dos mais belos poemas sobre a condição humana, o hino a Isis descoberto Nag Hammadi, que os peritos datam entre os séculos III e IV de nossa era:

Porque eu sou a primeira e a última

Eu sou a venerada e a desprezada

Eu sou a prostituta e a santa

Eu sou a esposa e a virgem

Eu sou a mãe e a filha

Eu sou os braços de minha mãe

Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos

Eu sou a bem-casada e a solteira

Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou

Eu sou a esposa e o esposo

E foi meu homem quem me gerou em seu ventre

Eu sou a mãe do meu pai

Sou a irmã de meu marido

E ele é o meu filho rejeitado

Respeitem-me sempre

Porque eu sou a escandalosa e a discreta. 

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