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Crônicas dos Campos Gerais: ‘Um match em Palmeira’

Texto de autoria de Rogério Geraldo Lima, empresário, redator e radialista, Palmeira, produzido no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais



No Estádio João Chede, propriedade do Ypiranga Futebol Clube, de Palmeira, há 100 anos a bola rola no gramado e uma testemunha está lá desde o início desta história. É a arquibancada de madeira, em estilo arquitetônico inglês, um bem tombado como patrimônio histórico do Estado do Paraná, com episódios alegres e tristes impregnados em suas tábuas e vigas.

Os arquivos das memórias foram já deletados pelo implacável dedo do tempo. Imagino então um match de futebol dos primórdios, quando um polaco grandalhão inflava o peito para não ser vazado jogando de goal keaper, que um mulatinho ligeiro distribuía dribles desconcertantes e passes precisos, atuando como center half, e que um avantajado alemão fazia gols de cabeça e de canela na posição de center forward.

O match, como seria de supor, terminou em confusão generalizada. Por sinal, uma das maiores de todos os tempos nos limites dos rios Forquilha e Monjolo. Na etapa final, quando faltavam poucos minutos para o fim do prélio, o placar marcava 3 a 3 e o mulatinho fazia carnaval, driblando adversários de um lado para o outro, quando foi violentamente atingido por um beque adversário. Foul apitado pelo árbitro. Sem conter a dor, o jogador levantou-se e, célere, viu que o alemão sinalizava. Com precisão, colocou a bola na cabeça do avante, que a mandou para o gol. Adversários correram para reclamar ao apitador a invalidação do gol por offside. Porém, o referee, com cara de poucos amigos, incontinenti, deu como válido o goal.

Aí, acabou o jogo e seguiu-se um corre-corre nunca antes visto. Voadora e rabo- de-arraia para todo lado. O goleiro polaco acertou com a mão espalmada – e que mão! –  a cara de um adversário que se atreveu desafiá-lo e terminou estirado fora do campo. O alemão autor do gol fugiu, perseguido por torcedores do team adversário que o alcançaram, atingindo-o na região glútea com vários quicks. “Parrem de chutarrr meu punda”, implorava, choroso.

O mulatinho, sagaz, desapareceu em desabalada carreira após transpor, num jump, os trilhos da estrada de ferro. Permaneceu embrenhado no mato durante dias, tomando para si a culpa pelos acontecimentos daquele domingo de fuzarca.

A ficção ganha vida com o futebol e suas histórias, dada a riqueza cultural do nobre esporte bretão e da arquibancada centenária do Estádio João Chede. Não só de futebol o futebol vive, mas também é, há incontáveis décadas, pretexto e fonte inspiradora para a literatura. Como fez aqui este writer. E trila o apito final!

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